É impossível ignorar a relação especial entre Max Verstappen e o circuito de Interlagos. O holandês costuma brilhar em São Paulo como em poucos outros lugares — seus resultados falam por si: três vitórias, duas poles e sete pódios em dez participações.
Suas atuações também entraram para a história: a exibição incrível na chuva em 2016, o toque com Esteban Ocon em 2018 quando lutava pela vitória, ou a corrida mágica de 2024, vencida após largar em 17º sob forte chuva.
No domingo (9), Super Max adicionou mais um capítulo marcante ao seu repertório. Depois de largar dos boxes por conta de sérios problemas de equilíbrio do Red Bull na classificação, ele partiu para uma recuperação fulminante e terminou o GP em terceiro.
O holandês ficou atrás do dominante Lando Norris e de um impressionante Kimi Antonelli. Largar dos boxes e acabar no pódio é algo raríssimo: esta foi apenas a oitava vez que um piloto alcançou tal feito na Fórmula 1.
Precedentes históricos
O primeiro registro dessa façanha remonta ao GP de Kyalami de 1984. Alain Prost, favorito após vencer a etapa de abertura no Rio, teve seu McLaren apagado antes da volta de apresentação por um problema no sistema de combustível.
Ele voltou aos boxes, pegou o carro reserva e, com uma pilotagem impecável, cruzou em segundo lugar, atrás de Niki Lauda. A corrida ainda marcou o primeiro ponto de Ayrton Senna na F1, apesar de o brasileiro ter terminado exausto e com o bico do carro danificado.
Anos depois, no mesmo fim de semana em que Prost anunciou que deixaria a McLaren, Nigel Mansell repetiu o feito. Depois de ser atingido por Mauricio Gugelmin na largada, o britânico precisou recorrer ao carro reserva e partir dos boxes.
Com uma recuperação feroz e contando com vários abandonos — entre eles, os de Senna, Berger, Nannini e Capelli — Mansell terminou em segundo, enquanto o estreante Jean Alesi brilhou com um quarto lugar pela Tyrrell.
A próxima ocorrência veio apenas em 2003, em Melbourne. Antes da largada, a chuva embaralhou as estratégias e Kimi Raikkonen decidiu trocar pneus intermediários pelos de pista seca ainda nos boxes, momentos antes da luz verde.
Partindo inicialmente de 15º, ele escalou o pelotão rapidamente e chegou a liderar. Uma punição por excesso de velocidade no pit lane o empurrou para quarto, mas problemas na Ferrari de Michael Schumacher o colocaram no pódio, encerrando a sequência de 53 pódios consecutivos da equipe italiana.
Em 2005, Rubens Barrichello foi o próximo protagonista. Largando dos boxes após um problema no câmbio, o brasileiro passou boa parte da corrida longe das primeiras posições. Porém, abandonos de Fisichella e Alonso, um erro de Button e a desclassificação de Montoya após o Safety Car abriram caminho para Rubinho alcançar o pódio — seu penúltimo pela Ferrari.
Outro destaque veio em 2009, com Jarno Trulli. Após sofrer danos na asa traseira na volta de aquecimento, o italiano precisou largar dos boxes. O Toyota, equipado com o famoso difusor duplo, tinha um ritmo excelente, e Trulli terminou atrás da dupla da Brawn, beneficiado pelo acidente entre Vettel e Kubica a três voltas do fim.
Sebastian Vettel repetiu o feito em 2012, em Abu Dhabi. Punido após a classificação por baixo nível de combustível, largou do pit lane, danificou a asa dianteira ao tocar Bruno Senna e ainda assim escalou o pelotão com velocidade impressionante.
Um incidente entre Rosberg e Karthikeyan lhe rendeu uma parada “grátis”. Depois de quase colidir com Ricciardo, Vettel terminou em terceiro, atrás de Raikkonen — na famosa corrida do “Leave me alone, I know what I’m doing” — e de Alonso.
A última vez antes de Verstappen havia sido em 2014, na Hungria. Após um incêndio no seu carro na classificação, Lewis Hamilton largou dos boxes. Rodou na curva 2 com pneus frios sob pista molhada, mas escapou sem danos maiores.
Um timing perfeito na troca para pneus de pista seca, aliado ao azar de Rosberg preso atrás do Safety Car, permitiu ao britânico conquistar o terceiro lugar, atrás de Ricciardo e Alonso — mesmo ignorando a ordem de equipe para ceder posição ao companheiro.
E quem quase conseguiu?
Dois nomes merecem menção especial: ambos chegaram perto, mas acabaram desclassificados.
Em 1988, em Jacarepaguá, Ayrton Senna enfrentou problemas no câmbio após a volta de apresentação e foi para o carro reserva — algo proibido após a bandeira verde. Mesmo assim, fez uma recuperação monumental até o segundo lugar, antes de receber a bandeira preta na volta 31.
Em 2004, em Indianápolis, Juan Pablo Montoya também largou dos boxes após problemas no carro pouco antes da apresentação. A equipe demorou para preparar o reserva, e o colombiano retornou à pista instantes antes do início. Ele chegou a lutar pelo pódio, mas a desclassificação na volta 57 o impediu de concretizar o resultado.