As performances de Kimi Räikkönen pela Lotus foram tão expressivas que quase levaram a equipe ao colapso financeiro, por causa de uma cláusula de desempenho prevista em seu contrato.
Depois de deixar a Ferrari no fim de 2009 — período em que conquistou seu único título mundial, em 2007 —, o finlandês se afastou da Fórmula 1 e passou a disputar ralis, além de participar de provas da NASCAR. O retorno ao grid aconteceu em 2012, quando assinou um contrato de dois anos com a Lotus-Renault.
E o custo do sucesso de Räikkönen acabou sendo alto para a equipe. Em duas temporadas, ele somou 390 pontos no campeonato, com 13 pódios e duas vitórias marcantes: no GP de Abu Dhabi de 2012 e no GP da Austrália de 2013.
Os resultados superaram tanto as expectativas que quase comprometeram as finanças da Lotus. Isso porque o contrato de Räikkönen previa um bônus por ponto conquistado no Mundial — cláusula que, diante de seu desempenho, gerou uma cifra astronômica.
Em texto publicado no site oficial da Fórmula 1, na série “O verdadeiro Kimi Räikkönen – uma perspectiva finlandesa sobre o Homem de Gelo”, o jornalista Heikki Kulta relembrou os bastidores do retorno do piloto à categoria.
“Ouvi pela primeira vez sobre os planos de retorno de Räikkönen à Fórmula 1 no GP da Alemanha de 2011. Naquele momento, havia negociações com a Williams, mas, mais tarde naquele outono, surgiu a notícia de que ele havia fechado com a Lotus. Divulguei a informação assim que soube do contrato”, escreveu.
Piloto chegou mostrando que não havia perdido a velha forma
Kulta destacou o impacto imediato de Räikkönen: “Na quarta corrida de 2012, no Bahrein, ele já terminou em segundo com a Lotus. Depois veio aquela vitória incontestável em Abu Dhabi, sob as luzes do entardecer, em 4 de novembro — uma lembrança que ficará comigo para sempre, especialmente quando visto o moletom com a frase ‘Leave me alone’, que ganhei de Natal.”
Segundo o jornalista, o acordo firmado pelo então chefe da equipe, Gérard López, previa o pagamento de 50 mil euros por ponto marcado. “Ele certamente não esperava um desempenho desse nível. O bônus por pontos sozinho garantiu a Räikkönen cerca de 19,5 milhões de euros, valor que quase levou a Lotus à falência.”
Conhecido por sua personalidade direta e sem filtros, Räikkönen se tornou um dos personagens mais carismáticos da Fórmula 1 — algo que Kulta conhece bem, após entrevistá-lo inúmeras vezes ao longo de mais de duas décadas.
“Não é exagero dizer que Räikkönen é o piloto mais honesto que já passou pela Fórmula 1”, afirmou. “Ele não joga o jogo político e, às vezes, responde de forma tão direta que pode soar dura. Se a pergunta for estúpida, você vai perceber na hora.”
O jornalista recorda um episódio emblemático em 2004, quando foi convidado pela McLaren para entrevistar Räikkönen após o primeiro dia de testes com o MP4-19, para a revista oficial da equipe, Racing Line.
“O carro já estava na pista desde novembro de 2003, mas Kimi só o pilotou em janeiro, após três meses de férias de inverno por causa de uma cirurgia no pulso. Perguntei qual tinha sido a primeira impressão dele sobre o carro”, contou. “A resposta, em finlandês, foi direta: ‘É uma completa merda’.”
Evidentemente, a declaração não pôde ser reproduzida na revista. “Em inglês, escrevi que o carro não era exatamente o que Kimi esperava. Ainda assim, era verdade”, completou Kulta.
O MP4-19 abandonou seis das sete primeiras corridas da temporada e somava apenas oito pontos quando a versão atualizada, o MP4-19B, entrou em ação. Räikkönen seguiu competindo na Fórmula 1 até o fim de 2021, encerrando uma carreira icônica após três temporadas pela Alfa Romeo.