Maurizio Arrivabene, ex-chefe da Ferrari, avalia que os documentos enviados por Lewis Hamilton à equipe indicam que a relação entre as partes já estaria, na prática, “encerrada”. O dirigente ainda fez uma comparação pouco favorável entre Hamilton e Sebastian Vettel, afirmando que as tentativas do alemão de orientar a equipe no passado foram “quase inúteis”.
Após a transferência de grande impacto da Mercedes para a Ferrari em 2025, Hamilton viveu uma temporada extremamente difícil. Pela primeira vez na carreira, o heptacampeão mundial terminou um ano inteiro sem subir ao pódio.
Aos 40 anos — completará 41 no próximo mês —, o britânico não conseguiu acompanhar o ritmo de Charles Leclerc e encerrou o campeonato com uma desvantagem expressiva de 86 pontos em relação ao companheiro. E muito longe dos ponteiros na classificação.
Durante o GP da Bélgica, em julho, Hamilton revelou que vinha assumindo um papel mais ativo na tentativa de mudar o cenário dentro da Ferrari. Em entrevistas ao portal PlanetF1.com, na coletiva da FIA antes da corrida, ele contou ter enviado uma série de “documentos” à equipe, com sugestões envolvendo o carro, a comunicação entre departamentos e a execução dos fins de semana de corrida.
Segundo Hamilton, o primeiro relatório foi encaminhado após as etapas iniciais da temporada, seguido por outros dois durante a pausa de três semanas entre os GPs da Grã-Bretanha e da Bélgica. Ainda de acordo com informações do PlanetF1.com, um quarto dossiê teria sido enviado depois do GP de Singapura, no início de outubro.
O britânico explicou que essa postura mais participativa nasceu de sua recusa em repetir o destino de Vettel e Fernando Alonso, campeões mundiais que passaram pela Ferrari sem conquistar títulos pela equipe. Mas, até aqui isso não deu resultado.
Erro cometido por Vettel é o mesmo do Heptacampeão?
Arrivabene, no entanto, acredita que Hamilton caiu no mesmo erro cometido por Vettel ao tentar ampliar demais sua influência técnica. Em entrevista à Sky Italia, ele afirmou: “Sebastian Vettel também enviou dossiês parecidos. Ele escreveu, falou e compartilhou tudo”. Ao avaliar o impacto desse material, foi direto: “Quase inúteis”.
O ex-chefe da Ferrari completou: “Não quero falar mal do Sebastian, mas cada um precisa cuidar da própria vida. Quando um piloto começa a querer ser engenheiro, acabou. Aí, de fato, tudo termina”. Para Arrivabene, o papel do piloto é fornecer feedback relevante na pista, e não tentar interferir em detalhes técnicos complexos.
Arrivabene já havia repreendido Vettel publicamente no fim de 2016, após uma temporada sem vitórias da Ferrari, pedindo que o alemão se concentrasse apenas em pilotar. Na época, disse: “Sebastian só precisa focar no carro. Ele é alguém que se envolve muito com tudo, então às vezes é preciso lembrá-lo da tarefa principal”.
Comentários semelhantes foram reforçados recentemente por John Elkann, presidente da Ferrari, que no mês passado pediu a Hamilton e Leclerc que falassem menos e se concentrassem mais em pilotar após um fim de semana desastroso no GP de São Paulo.
Antes de se juntar à Ferrari, Hamilton buscou conselhos com o próprio Vettel. O contato ocorreu ainda em 2024, depois da confirmação de que Riccardo Adami — ex-engenheiro de Vettel e Carlos Sainz — seria seu engenheiro de corrida em 2025. Os dois também teriam conversado diversas vezes por telefone antes da chegada oficial de Hamilton a Maranello.
Durante os testes de pré-temporada, o britânico chegou a ser visto fazendo anotações à mão entre as voltas, o que remeteu ao hábito de Vettel, conhecido por manter cadernos detalhados ao longo da carreira.
Em participação recente no podcast Beyond the Grid, Vettel afirmou que a passagem de Hamilton pela Ferrari só terá sucesso se “muitas coisas se alinharem”. “Quanto mais tempo demorar, mais difícil fica”, disse. “Ele tem uma capacidade incrível de refletir sobre a situação em que está e sobre as dificuldades que enfrenta. Acho que ainda é algo que ele realmente quer fazer”.
Vettel concluiu: “Ele tem boas chances pelo talento que possui, mas precisa da equipe certa, das pessoas certas e do momento ideal. Seria ótimo vê-lo vencer na Ferrari — e acho que ele merece, se tudo der certo —, mas só o tempo dirá”.