Quando falamos sobre o início da história do automobilismo brasileiro, logo é pensado o nome de Emerson Fittipaldi, primeiro campeão nacional da Fórmula 1, porém deixamos de lado os pilotos que iniciaram a jornada nesta nova modalidade.
Um dos casos que precisa ser falado é de Hermano da Silva Ramos, um nome que praticamente ninguém tenha ouvido anteriormente, mas que tem grande importância para o país. Com 100 anos recém-completados, ele tornou-se o mais velho piloto vivo a ter disputado um corrida de Fórmula 1.
O brasileiro é o piloto mais longevo a competir na principal categoria do automobilismo mundial, mas poucas pessoas sabem deste detalhe. Na verdade, Hermano ou simplesmente “Nano”, nasceu em dezembro de 1925 em Paris, sendo filho de pai brasileiro e mãe francesa. Passou sua infância em solo francês, mas veio para o Brasil refugiado nos anos 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, chegando para morar no Rio de Janeiro.
No início da década seguinte, Nano retornou para a França, onde permaneceu. Mesmo vivendo na Europa, ele nunca esqueceu o seu vínculo com o Brasil, declarando seu amor durante uma entrevista ao jornalista brasileiro, Marcio Arruda, para a agência francesa RFI: “Eu corria pelo Brasil.“Sinto que sou muito mais brasileiro que francês no automobilismo”.
Tudo isso se deu ao fato de Hermano correr sob a bandeira do Brasil. Após voltar à Europa, Silva Ramos voltou a correr em 1952, quando naquele mesmo ano, ele foi assistir ao vivo às 24 Horas de Le Mans e acabou se apaixonando pelos Aston Martins DB2, que participava da prova.
De família rica, logo comprou um DB2 para si e usando ele, começou a se inscrever em provas regionais. Em 1953, venceu o Rali de Sable, ainda na cidade de Le Mans, e o Torneio de Velocidade de Montlhéry no ano seguinte.
Em 1954, tornou-se o segundo piloto brasileiro na história a competir nas 24 Horas de Le Mans, após a estreia de Bernardo Souza Dantas, que competiu com o mesmo Aston Martin DB2, acompanhado de Jean-Paul Colas. A empolgação inicial acabou com o abandono da prova, após uma falha na transmissão do veículo. Ele ainda chegou a participar em mais três provas, em 1955, 56 e 59, a última em uma Ferrari 250 Testa Rossa, da equipe de Maranello.
Ao ser contratado pela Ferrari, Nano contou que recebeu dois conselhos do fundador do time italiano, Enzo Ferrari: manter-se sempre na pista e ser rápido. Mas caso não cumprisse as recomendações, seria demitido.
Já na Fórmula 1, Hermano disputou sete corridas entre os anos de 1955 e 1956, todas pela pequena equipe francesa Gordini. Inicialmente, o carro era o fraco Type 16, desenvolvido três anos antes. Logo no primeiro ano, os resultados nas provas da Holanda, Grã-Bretanha e Itália foram ruins, mas “Nano” logo viveria seus momentos de glória no GP de Mônaco de 1956, levando o Gordini com motor seis-cilindros em linha para um histórico quinto lugar e ficando com dois pontos.
É bom relembrar que o franco-brasileiro era o terceiro a alcançar a Fórmula 1, ficando atrás apenas de Chico Landi e Gino Bianco, além de ser o segundo a pontuar, após Landi ficar com um quarto lugar no GP da Argentino do mesmo ano. Contudo, naquela prova, Chico dividiu o Maserati 250F com Gerino Gerini, algo que o regulamento da época permitia. Com isso, até a chegada de Emerson Fittipaldi em 1970, “Nano” foi por 14 anos o brasileiro que mais pontuou na categoria.
Bastante respeitado e quatro vezes vice-campeão, Hermano da Silva Ramos poderia ter uma carreira maior na F1, porém um acidente traumático que o seu amigo Alfonso de Portago na Mille Miglia em 1957, e vitiou outras nove pessoas, fez com que o franco-brasileiro recusasse a correr o GP de Mônaco e pouco tempo depois, decidiu deixar a Gordini.
Nos três anos seguintes, Nano correu provas de carros esportivos e de longa duração, porém enfim abandonou a carreira de piloto em 1960, aos 35 anos.